Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Estrutura do acto de conhecer

 

   A epistemologia é uma das disciplinas centrais da filosofia. Nesta disciplina, estuda-se a natureza do conhecimento, os seus requisitos e limites. Algumas das perguntas  centrais da epistemologia são:

  • Que tipos de conhecimento há?
  • O que é o conhecimento?
  • Quais são as fontes de conhecimento?
  • Será possível conhecer algo?

                            Tipos de conhecimento

   Que tipos de conhecimento há? Saber tocar piano, por exemplo, não é como saber que os pianos têm teclas. Saber andar de bicicleta é diferente de saber que andar de bicicleta é saudável. Mas existe algo em comum entre estes tipos de conhecimento: nos dois casos há um sujeito (que conhece) e um objecto (o que é conhecido). Por exemplo:

a. O João sabe andar de bicicleta.

b. O João sabe que andar de bicicleta é saudável.

   Ambas as frases exprimem uma relação de conhecimento  entre o João e as coisas que ele sabe. No primeiro caso, o objecto de conhecimento é andar de bicicleta; no segundo, a ideia de que andar de bicicleta é saudável. Diz-se que o João é o sujeito do conhecimento ou o agente cognitivo. Por vezes, o objecto e o sujeito de conhecimento coincidem, pois o João também sabe que ele próprio existe, por exemplo, ou que se chama «João».

   Mas que tipo de coisas sabemos? Por exemplo:

1. O João sabe andar de bicicleta.

2. O João conhece Luís Figo.

 

   Em 1, o objecto do conhecimento é uma actividade (andar de bicicleta). Este é o tipo de conhecimento a que os filósofos chamam «saber-fazer».

   Saber andar de bicicleta não é como conhecer Luís Figo. O objecto de conhecimento no caso 2 é um objecto concreto (Luís Figo) e em 1 é uma actividade. Além disso, conhecer Luís Figo é ter algum tipo de contacto directo com ele, conhecê-lo pessoalmente. Podemos saber muitas coisas sobre ele, mas se não o conhecermos pessoalmente não dizemos que o conhecemos. A este tipo de conhecimento que temos quando conhecemos uma pessoa, uma cidade, etc., chama-se conhecimento por contacto.

   Alguns filósofos, como Bertrand Russell, defendem que não conhecemos realmente por contacto uma cidade ou uma pessoa, mas apenas as sensações que temos de uma cidade ou de uma pessoa. Contudo, hoje em dia, os filósofos usam a noção de conhecimento por contacto num sentido menos restrito. Exemplo:

3. O João sabe que Luís Figo é um jogador de futebol.

4. O João sabe que Londres é uma cidade.

 

   Os filósofos chamam «saber-que» ao tipo de conhecimento expresso em 3 e 4. No caso do saber-fazer, o objecto do conhecimento é uma actividade. No caso do conhecimento por contacto, o objecto é uma pessoa ou lugar (um objecto concreto). No caso do saber-que, o objecto do conhecimento é uma proposição. Uma proposição é aquilo que é expresso por uma frase declarativa.

   Quando dizemos que João sabe que Londres é uma cidade, o que o João sabe é que a proposição expressa pela frase que está depois da palavra «que» («Londres é uma cidade») é verdadeira. Por outras palavras, saber que Londres é uma cidade ou que Luís Figo é um jogador de futebolé saber que é verdade que Londres é uma cidade ou que Luís Figo é um jogador de futebol. A este tipo de conhecimento também se chama «conhecimento de verdades» ou «conhecimento proposicional», pois o seu objecto é uma proposição verdadeira.

   Praticamente tudo aquilo que aprendemos na escola é do tipo saber-que. Aprendemos que qualquer número multiplicado por zero dá zero, que D. Afonso Henriques foi o primeiro rei de Portugal, que o Sol é uma estrela, que Portugal fica no continente europeu, etc.  Praticamente todo o nosso conhecimento científico, histórico, matemático, literário, etc. é deste tipo. Não é portanto de estranhar que os filósofos tenham centrado a sua atenção nesta noção de conhecimento.

publicado por filosoficamentefalando às 17:29
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